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domingo, 26 de julho de 2009

Pega na mentira!





Aproveitando o momento nacional em que a mentira impregna o imaginário social do país, é permitida por lei, vide CPIs com permissão para omitir, não se pode deixar de fazer justiça aos Estados Unidos e suas imensas enganações em todos os tempos.

Vocês têm que conhecer o Fonseca, meu amigo idiota e muito rico, que faz uma cruzada pelo mundo "a cata das grandes mentiras". Agora está nos Estados Unidos, respeitável produtor da mercadoria, onde se encontra o que se chama de Grande Ludibrio, também conhecido por ONU, totalmente monitorada pelos americanos.

Dentro dessa mentira paira, entre outras, a tristemente célebre mentira chamada Conselho de Segurança. Para começar, é formado pelas cinco nações que mais fabricam armas de destruição em massa. E tem poder de, deixar ou não, destruir um povo inteiro, por exemplo.

A ONU existe para não deixar ninguém ou nada ocupar verdadeiramente o lugar pacificador para o que foi criada. Os cúmplices do globo são forçados a contracenar com o império. Vamos ao insólito, então.

Fonseca acha que o homem jamais chegou à lua, a não ser em filmes de laboratório. Coloca suas razões. Vamos a 1969 quando teria acontecido a primeira viagem. Uma dessas geringonças pesadíssimas, mesmo para a gravidade da lua, necessitando de toda aquela parafernália de Cabo Kennedy para decolar, atravessa a estratosfera terrestre, em manobra como sabemos de extrema complexidade, entra na órbita da virgem lua e, digamos, aluniza, sem qualquer preparo prévio.

Chegando deram três pulinhos. Uma graça. Fonseca acha que deixaram de fazer a única coisa que deveriam: fotografar a Terra. Essa mentira em especial deixou muitos rastros e pegadas no local do crime. Depois, sem preparo algum, decolam da lua, reacoplam, voltam felizes e contentes.

Uma sofisticadíssima nave espacial do tipo Discovery em tempos atuais, só para fazer a primeira parte da novelesca conquista da Lua sem problemas, como, por exemplo, explosões. E levam quatro anos para realizar nova tentativa, coisa e lousa.

A nave que teria ido à lua voltou lá no mesmo ano. É mole? Manjam 69? TV preto e branco, válvulas, carburador...

Mentem sobre o Iraque, o Vietnã, a Princesa Di, o comunismo no Brasil, para justificar o golpe de 64, os Ets aprisionados em um campo do exército, invasão de marcianos, e sobre o que quiserem. Diante da propaganda americana, para Fonseca, a de Hitler era fichinha.

Essa modalidade de hipnose globalizada que tem reprodutores em todo o mundo paralisa os cérebros e desvia as atenções. A questão – só para citar um exemplo - não é se o Iraque tem ou não tem bomba atômica. A questão é: porque alguém tem?

Ou se quiserem: alguns países têm direito de matar e outros não. Corrijam Fonseca, se for o caso. Alguém já questionou isso publicamente com veemência? Será que isso é o tal afinamento com a política dos Estados Unidos via FMI?

Fonseca nunca viu. Nem eu.

domingo, 7 de junho de 2009

Amor e gelo

Permitam-me, estimados leitores, que exponha aqui a inevitável admiração por Fonseca (foto), meu amigo idiota, justo agora que acaba de escrever sua segunda obra. Mesmo adepto da própria máxima que lhe povoa a mente – “De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo” – sou obrigado a mudar de ideia, e o faço com extrema reverência. Por detrás daquelas estranhas e ininteligíveis garratuchas, quantas coisas sutis que sempre pertenceram ao enclausurado mundo de Fonseca vêm operar fora de seu pequenino cérebro.


O seu segundo ataque à flor do Lascio, como insinuam os poucos letrados, tem um insólito título: “Esculhambação - A Organização Caótica do Caos” . Não cabe a mim sequer interpretar o que ocorreu junto à mortalha do pai quando proferiu citando Pessoa: “Não rezem latim sobre seu caixão, ou, se quiserem, rezem. Ele não quer ter preferências para quando não puder ter preferências. A realidade não depende dele nem de ninguém”. Ainda bem. Pois então.


Folheio um livro de contos em busca de personagens. Ultimamente os personagens que encontro são todos projeções de mim mesmo, de modo que acho pouca coisa fora dos meus limites, o que revela uma certa miopia para o mundo criativo, seja como ele for. E dentro de mim paira o caos, o engraçadíssimo caos, pai do humor, dos humores, e da inteligência. Remeto-me à esculhambação.
Estou diante do capítulo 23 das obras completas de Fonseca: um único livro, porém limpinho. Não importa, já que toda a representação é subjetiva e repleta, inclusive, do que não somos ou do que desejaríamos ser. E ai de nós se não fosse assim. Não seria nada. Trato então de reproduzir, fielmente, trechos do 23, o tal capítulo, denominado “Jingobel, Jingobel, acabou o papel, limpei com jornal..."


Não entendi nada, mas acho que Fonseca não tem tal consideração com o próximo: fazer-se entender. Enfim, trata-se de uma obra de semi-ficção contada por seu avô, igualmente Fonseca, quando decidiu abandonar a civilização – a família morava em Caravelas, na Bahia – e foi sozinho arriscar-se nos confins do Judas, o Alasca, depois de entrar triunfalmente nos Estados Unidos, via México, andando feliz pelas areias do deserto com velocidade recorde, incentivado que estava pelos tiros dos guardas americanos de fronteira, que acham que todo mundo quer morar naquela merda. Pior que eles têm razão.


Acabou fixando residência, o Fonseca avô, naquela geleira, onde adquiriu uma cabana abandonada e não tinha contato com ninguém. De seis em seis meses caminhava horas para comprar mantimentos e durante dez anos jamais falou com ninguém ou teve qualquer contato com algo que não fosse banha de foca, carne seca e água. Pois bem.


Barbudo e abandonado pela própria sorte, ou azar, vai saber, estava quase voltando para Bahia, a conselho de Caetano Veloso, que sempre faz isso, só de raiva. Lá teria trabalho, como todos os baianos. No caso dele o sacrifício consistiria em embalar-se em uma rede de armar, colorida em rosas brancas e amarelas, e esperar chover para tomar seu banho bem devagarzinho, entre outros sacrifícios do gênero.


Mas eis que surge o inesperado. Era então tempo de Natal, o frio e a neve não davam trégua.
A solidão que buscava já a havia encontrado de sobra. Tarde da noite, antevéspera do regresso, aparece uma transição entre o homem e a retroescavadeira, ou seja, um cara imenso tanto para cima como para os lados. Bateu na porta e vovô Fonseca atendeu. Falava uma língua que jamais se soube qual era, mas deu para entender.


- Hoje, Natal em casa, você convidado .

- Obrigado.

- Mas vai ter muita bordoada, briga de facão e o cacete...

- Faz parte, naturalmente. Eu sei comportar-me em sociedade...

- Mas vai ter sexo, sacanagem, a lei do desejo, a submissão, o amor sem preconceito, viver o oposto do gelo frio e desafiador...

- Mas é justamente o que estou precisando agora.

- Então aparece.

- Escuta, amigo, qual é o traje?

- Você é quem escolhe. Só vamos estar nós dois. (Fecha o pano, volta o elenco para mais aplausos, a orquestra toca o tema final, fecha a cortina de novo, e abre, e fecha e fica nessa lengalenga).

sexta-feira, 5 de junho de 2009

As mil e uma mortes de Augusto da Fonseca


Ninguém o conheceu vivo ou morto.

A primeira vez que morreu foi quando o abandonou o avô João, ícone da segurança, da aventura e da raça. Depois morreu de novo, quando se despediu para sempre da avó Alice, em cujo colo cabia todos os netos e alguns amigos.

Voltaria a morrer muitas vezes, para tempo depois, como uma Fênix e como queria Melanie Klein, nascer de novo. Outra vez morreu quando lhe morreu o casal de irmãos, levando junto a alegria de viver da mãe e um vizinho chamado Cazinho Bom de Bola, mas não prestava atenção nos ônibus que passavam correndo feito uns danados. Um dia morreu porque apaixonou-se por uma menina de colégio, a Glória, e ela jamais veio a saber disso. Morreu no dia em que ela arranjou um namorado mais feio que ele.

Morreu de novo quando o time em que jogava futebol de salão perdeu a final para o time do Grêmio da escola. Como não fosse o bastante, perdeu um penalty e toda a vontade de sair naquela semana. Veio a morrer novamente quando suando até, encostou o dedo mindinho no dedo mindinho da coleguinha no teatro e ela retirou rápido. A primeira rejeição ninguém esquece.

Morreu, também, quando uma das duas calças compridas – marrom de casimira – sujou de óleo, desgraçado para sair. Ao lavar na Brastemp saiu arrancando um pedaço,
como sairiam todas as suas coisas. Era tão linda aquela calça casada com uma camisa amarelo-ovo que ficou sem par.

Morreu ainda quando se apaixonou correspondido e acabou perdendo o amor para o nada, o medo, a indecisão. Desceu aos infernos no primeiro dia. Séculos depois, quantas travessias para amar a sua casta Dulcinéia, em Paul, e em todos os lugares. Morreu de novo.

Passou muito tempo sem morrer e sem viver.

Só foi morrer quando – sendo ele Flamengo doente – viu seu time perder por causa de um ponta direita muito do ruim de bola perder vários gols e jogar mal. Preocupava-se então com o grotesco do cotidiano.

Em estado morto passou a torcer pelo América Futebol Clube do Rio, junto com seu querido tio Landinho, o que por si só é uma morte lenta e inexorável. Aliás, acabou de morrer.

Morreu insistentemente quando não acabou o primeiro casamento, mas teve que acabar.

Morreu muito, morreu demais. Há coisas além da morte que até Deus duvida.

Morreu historicamente quando o país e as verdadeiras forças armadas foram invadidos pelo esquema dos Estados Unidos, no Golpe de 64, que criou em laboratórios militares de plantão que servem a qualquer sacanagem imperialista. Mas lutou mesmo morto. E morreu de novo.

Que eu me lembre só veio a morrer novamente quando teve que abandonar as redações de jornais e revistas para fazer medicina. Morreria muitas vezes nesse território, cheio de incompletude, pronto-socorros, no fundo. Mas nascia de novo a cada sorriso que se recuperava no outro. E voltava a morrer a cada consciência de que fazia emergência. Não há um curso de Medicina no mundo – achava – há cursos de emergência clínica, uma grande UTI porque ninguém se importa com a saúde, só com a doença. E morria a toda hora, o cara.

Morreu outra vez quando lhe saiu o pai, que era uma mãe, que era tudo. Até hoje conversa com ele, escondido da patrulha senão volta para o Adauto Botelho em outra função. Morreu muitíssimo aí. Dessa morte ressuscitaria, apenas porque foi a pedido do pai. Não me perguntem como, porque não sei. São coisas só dele.

Morreu novamente quando se despediu da mãe e recebeu dela as duas alianças em leito prenhe de infecção hospitalar. Morreu tanto, que pensou em abandonar a Medicina, já que escrevia. Morreria de outra feira quando descobriu que a concepção binária de causa e efeito da psicanálise é uma tolice simplificadora demais. E morreu da teoria. Nasceu pensando as coisas pela Física, e não pelo físico.

Morreu um tanto quando lhe foi o segundo casamento, por – segundo ele – pura incompetência. Eu lhe disse que não era assim, as coisas tem outros lados. Não me ouviu e morreu de novo. Acho que já estava acostumado, sei lá.

Morreu, quando morreu Paulo Torre e, depois, Raimar. Também aí morreu, tanto que o vi ficar com raiva. Pedi-lhe que não morresse, mas novamente morreu.

Teve outras pequenas paradas no intercurso, mas nada que Helinho ou Rogério Montenegro não pudessem acalmar, mesmo tendo tido – sempre quis escrever essa expressão – a perna quebrada por ele em uma pelada no Ouriço Futebol Clube. Morreu um mês, ficando sem jogar bola.

Morreu de novo quando sumiram o próprio Ouriço, o Britz, os bares da Praia do Canto, o Praia Tênis, a navegação costeira e o SMS Ana Nery, irmã do Rosa da Fonseca, o Hillary e o Hidelbrand da Booth Line, os lotações que serviam a Praia do Suá, do Marinho Delmaestro, o vocabulário cabixaba (cancha, ponga, furrupa, camarada...).

Nasceu com Rachel, e morreu dez anos depois. Renasceu com Viviane em encantamento e dor. Logo morreria. Pedi-lhe calma, que não andasse desperdiçando em velórios multicoloridos suas vidas felinas, mas que nada. Precisava morrer para viver.

Fui aos poucos compreendendo isso. Eu chegava a ficar perto de suas tantas sepulturas, calculando o tempo, para assistir o renascimento. E o pegava no colo cada vez mais cansado, mas sempre vivo. Trazia-o, como ainda o trago, com carinho beijava-lhe o rosto dava um banho de banheira, vestia-o com uma de suas melhores fantasias e jogava-o no mundo.”Vai fazer o que eu não consigo, vai, se precisar, pode morrer de novo!”.

Eu cá estou para envolver-lhe em um manto, carregá-lo até a exaustão, dar-lhe sopa na boca e um suco de cupuaçu, como fizeram tantos e tantas que não pudeste ver ou ouvir Peço que deixe que eu traduza o seu pranto e a sua aparente arrogância na meiguice que é.. Comigo pode ser ele mesmo, que não tenha medo.

Agora acabou de morrer. Está censurado, não pode escrever.

Não mais.